Arqueóloga do Som

trecho da coluna ‘Perfil’ do segundo caderno de O Globo de 13/09/2014.

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Por Debora Ghivelder

 

O Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, abriga “Musica Brasilis — Rio 450 anos de música”, exposição interativa que passeia por séculos, indo do repertório musical entoado pelos índios tupinambás até o funk atual. A mostra, que segue em cartaz até novembro, é atualmente a parte mais visível do trabalho a que se dedica a cravista carioca Rosana Lanzelotte há cinco anos: o portal musicabrasilis.org. br, que disponibiliza partituras, jogos, vídeos de “escuta guiada” e todo tipo de informação sobre repertórios brasileiros de várias épocas. Hoje, com cerca de 6 mil acessos mensais, ele se transformou na principal referência para a música clássica brasileira na web.

Desde que trocou o piano pelo cravo e foi para a Holanda para estudar com o renomado Jacques Ogg, Rosana abraçou de vez a música antiga e o gosto pelo garimpo de partituras por bibliotecas públicas e acervos particulares daqui e da Europa.

A alma garimpeira foi ainda mais atiçada quando, ao longo da realização do projeto Música nas Igrejas, que durou 20 anos, se viu desafiada a desencavar, contra todas as dificuldades, partituras de obras sacras brasileiras. Mas uma situação, em especial, a marcaria: em 2005, participou do Ano do Brasil na França, e os franceses queriam tocar algo que fosse além do Villa-Lobos que já conheciam.

— Não havia partituras disponíveis. Não é inacreditável? Você sabia que a “Brasília — Sinfonia da Alvorada”, do Tom Jobim, nunca foi editada? — diz Rosana, 53 anos, sentada em frente ao espaço que leva o nome do compositor.

Com a constatação de que a música clássica brasileira acabou representada só por Villa-Lobos, ela decidiu tomar para si o desafio de sanar essa escassez. Criou o portal que resgata e difunde repertórios brasileiros, em grande parte inacessíveis por falta de edições voltadas à execução. O site já virou até ponto de recado para estudantes e profissionais, daqui e do exterior, interessados em música brasileira.

— Tem gente que pede ajuda porque quer achar um artista ou uma obra. A equipe, então, tenta fazer a ponte.

E o site não está nem traduzido para o inglês. Torná-lo bilíngue é um dos investimentos que ela quer fazer tão logo consiga verba. Hoje, o Musica Brasilis disponibiliza cerca de mil obras de 300 compositores, possui um patrocínio de R$ 100 mil ao ano e mantém 15 pessoas ligadas à sua atividade.

 

 

clipping - a arqueóloga do som