Arqueóloga do Som

trecho da coluna ‘Perfil’ do segundo caderno de O Globo de 13/09/2014.
Por Debora Ghivelder

O Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, abriga “Musica Brasilis – Rio 450 anos de música” exposição interativa que passeia por séculos, indo do repertório musical entoado pelos índios tupinambás até o funk atual. A mostra que segue em cartaz até novembro é atualmente a parte mais visível do trabalho a que se dedica a cravista carioca Rosana Lanzelotte há cinco anos: o portal musicabrasilis.org.br que disponibiliza partituras, jogos, vídeos de escuta guiada e todo tipo de informação sobre repertórios brasileiros de várias épocas. Hoje com cerca de 6 mil acessos mensais, ele se transformou na principal referência para a música clássica brasileira na web.

clipping - a arqueóloga do som

Entrevista sobre o III Circuito BNDES Musica Brasilis

Reportagem do Jornal do Commercio de agosto de 2012

 

Dirigido por Rosana Lanzelotte, o Circuito BNDES Musica Brasilis teve a sua terceira edição em 2012, com 10 apresentações no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus e Salvador. Segue a entrevista concedida ao Jornal do Commercio, publicada em 24 de agosto de 201

O que você destacaria como as principais as novidades para a terceira edição do Musica Brasilis?
Nessa terceira edição do Circuito BNDES Musica Brasilis, queríamos estreitar o laço entre os repertórios e os ápices dos ciclos econômicos: açúcar, ouro, diamantes, café, borracha. Quando há riquezas materiais, a produção artística é fomentada e essa relação entre música e ciclos econômicos é muito interessante de se observar. Para enfatizar ainda mais essa ideia, contextualizamos os repertórios com imagens e textos, narrados pelo ator Mateus Solano.

Poderia falar um pouco sobre a projeção multimidia que permite ao público “ver” a música?
Havia visto no youtube os vídeos realizados pelo Stephen Malinowski, que “anima” as partituras de uma forma artística muito bonita. Queria usar isso em um espetáculo ao vivo. Ele ficou reticente, pois outros artistas haviam tentado sem conseguir. Porém, deu certo e estou muito feliz com a experiência. Além das animações dele, tivemos a arte da Superuber que concebeu imagens de grande impacto para “vestir” os repertórios. Também usaram um recurso que permite fazer pulsar os grafismos ao sabor do ritmo do que estamos tocando. Explique um pouco a proposta do projeto? Concebi o Musica Brasilis há cinco anos, ao perceber a grande dificuldade de acesso a partituras. A primeira iniciativa foi o site, que hoje hospeda mais de 500 partituras de compositores brasileiros e é visitado por 2000 pessoas mensalmente, de todos os lugares do mundo. O patrocínio do BNDES permitiu dar vida aos repertórios, que fazemos circular por todo o Brasil desde 2009. Como é feita a escolha do repertório? Nessa edição do III Circuito BNDES Musica Brasilis, queríamos enfatizar essa conexão da música com os ciclos econômicos. Revivemos repertórios nordestinos contemporâneos do ciclo do açúcar e mineiros do século do ouro, mas também descobrimos gênios contemporâneos do ciclo da borracha, como Paulino Chaves, de que será tocada uma obra inédita no concerto de Manaus.

Quais são as dificuldades de fazer um projeto como este?
A principal dificuldade é a obtenção de recursos. Para dar continuidade às ações do Musica Brasilis, é necessário desenvolver projetos, inscrevê-los nas leis de incentivo e buscar patrocinadores. Felizmente, temos a cumplicidade de patrocinadores como o BNDES, a Carioca Engenharia e a CSC Brasil, que apoiam o projeto desde o início.

O que é mais recompensador em fazer um projeto como o Musica Brasilis?
É muito gratificante ter a certeza de que estamos contribuindo de forma significativa para o resgate e difusão da música brasileira de qualidade. Sabemos também que essa é uma lacuna que tinha que ser preenchida por alguém que, como eu, tem um pé na música e outro na informática. Isso facilita a conversa entre essas áreas.

O que você atribui ao sucesso do projeto?
Coloco a minha energia inteira, que não é pouca, a serviço desse, que considero o meu mais importante projeto. Ao meu lado, tenho parceiros de grande competência, entre eles o André Sant’Anna e o Horácio Brandão, com quem dialogo para decidir sobre passos futuros, e Rodrigo de Santis, coordenador técnico do projeto. A parceria com a Superuber – já é nosso segundo projeto em conjunto – traz uma nova dimensão às nossas realizações.

Sobre o Instituto Musica Brasilis – você poderia fazer um balanço do trabalho desenvolvido durante estes anos todos no resgate de peças “esquecidas” da música nacional?
Até agora, a maior realização foi o resgate e disponibilidade da obra integral de Ernesto Nazareth para piano. Fomos os primeiros a colocar todas as 218 peças gratuitamente acessíveis pela web. Temos um grande acervo de obras de José Maurício Nunes Garcia, graças à doação de colaboradores como Antonio Campos. Nesse momento, estamos colocando no ar uma importante coleção de obras de Alberto Nepomuceno editadas pelo pesquisador Luiz Guilherme Goldberg. Outro que entra com destaque no momento é o Paulino Chaves. Graças à sua Neta, Lúcia Tourinho, estamos disponibilizando diversas obras dele. Todos esses repertórios são oferecidos com partes separadas para os instrumentos, sem o que não é possível tocá-­-los. Está em curso, também uma parceria com a editora Irmãos Vitale, detentora de joias da música brasileira, que não publica mais pela difícil viabilidade econômica da edição em papel de partituras.

Fique à vontade para fazer quaisquer observações
Quando se olha a música clássica brasileira, parece que Villa-­-Lobos é único. Claro que ele foi um gênio, mas suas obras foram editadas na França até muito recentemente, o que garantiu a difusão. Dos outros compositores, muito pouco se conhece porque os manuscritos ficam encerrados em bibliotecas, as obras não são tocadas e os nomes vão ficando para trás. Quem ouviu falar de Glauco Velasquez, o grande talento da música brasileira do início do século XX? Morreu aos 30 anos, quase não foi editado, as edições esgotaram-­-se… morre de novo ao não ser mais tocado. Por isso o Musica Brasilis é ncessário. O BNDES, que tem uma grande atuação na preservação de acervos, compreendeu que, no caso da música, para além da preservação do papel, temos que editar e fazer circular os repertórios.

Rio Música – exposição interativa

Tamara Menezes
Reprodução da ISTO É  de 6/6/2012

Rosana Lanzelotte fez a curadoria da exposição interativa Rio Música, em cartaz no Centro de Referência de Música Carioca, na Tijuca. Segue a matéria publicada pela revista Isto É.

“Foi-se o tempo em que museu significava um lugar austero, no qual apenas o olhar era privilegiado. Seguindo a tendência da nova safra de espaços culturais que usam a tecnologia para envolver todos os sentidos do visitante, o Centro de Referência da Música Carioca, situado na zona norte do Rio de Janeiro, só tem de antigo o seu prédio. Funcionando em um palacete do século passado, ele abriga a exposição de longa duração “Rio Música – Cinco Séculos de Música no Rio“, que usa as instalações interativas para que o público tenha um conhecimento renovado de um acervo que contempla desde o cancioneiro indígena, cujo primeiro registro data de 1577, até o som produzido nos bailes e favelas cariocas nos dias de hoje. Melodias compostas na antiga capital do Brasil são desvendadas por meio de instalações com teclas virtuais e vídeos expositivos.

“Para a mostra ser interessante, em especial aos mais jovens que lidam com a tecnologia desde cedo, é preciso dar a sensação de que estamos construindo juntos, criando música e experiências”, diz Rosana Lanzelotte, curadora da exposição. Rosana, a curadora da mostra “Rio Música”, é cravista, pesquisadora e doutora em informática – ou seja, a própria personificação bem sucedida da conjugação entre arte e ciência.

Ela dividiu a mostra em seis ambientes lúdicos em que se podem criar sons e melodias com as mãos e sem o uso de instrumentos tradicionais, no caso da Mesa Musical, ou dedilhar a história pelas teclas de um piano. A curadora acrescenta que a tecnologia permite que a exposição seja uma obra passível de ser sempre atualizada e adaptada.

150 Anos de Ernesto Nazareth

Em 2013, comemora-se 150 anos do nascimento de Ernesto Nazareth. Toda a sua obra para piano está acessível pela web desde 2009, por iniciativa da cravista Rosana Lanzelotte, premiada no edital Natura Musical. A cravista gravou também o CD Nazareth – para o selo Biscoito Fino – com inéditas do compositor, que pode ser adquirido através do iTunes.

A partir do resgate da obra de Nazareth, Rosana criou o site Musica Brasilis (www.musicabrasilis.org.br), voltado para o resgate e difusão de partituras de compositores brasileiros de todos os tempos e gêneros. Com mais de 2000 acessos mensais, o site tornou-se uma referência.

Para comemorar o aniversário de nascimento do compositor, em 20 de março, Rosana planeja o lançamento da versão portal do Musica Brasilis, com palestra de José Miguel Wisnik no Espaço Tom Jobim – Rio de Janeiro. O novo portal terá novos conteúdos sobre compositores e instrumentos, uma linha do tempo interativa e jogos sobre os repertórios de Nazareth.

Livro "Música Secreta – Minha Viagem ao Brasil" – biografia romanceada de Sigismund Neukomm

A estada do compositor austríaco Sigismund Neukomm no Brasil entre 1816 e 1820 é um dos capítulos mais singulares da Historia da Música no Brasil. Esse conterrâneo de Mozart, contemporâneo de Beethoven, e como este, aluno e amigo íntimo de Joseph Haydn – de quem foi o executor testamentário- chega no Brasil com uma bagagem musical quintessencialmente vienense, no extremo oposto da tradição operística italiana -notadamente a da escola napolitana então dominante no mundo luso-brasileiro -, cujo representante máximo em Portugal era a figura do compositor Marcos Portugal.

O ambiente musical que Neukomm encontra no Rio era marcado pela presença de duas grandes figuras : por um lado, o compositor Marcos Portugal, favorito dos portugueses, e por outro a figura modesta do Padre José Mauricio Nunes Garcia, cuja grandeza Neukomm percebeu de imediato e se empenhou em valorizar.

O livro de Rosana Lanzelotte traz importantes luzes não só sobre o período brasileiro de Neukomm como sobre a sua personalidade multifacetada: ao situar o relato na primeira pessoa, em tom de reminiscências, o narrador é ao mesmo tempo o personagem que observou o Brasil e aqui viveu experiências intensas. O plano do livro é um achado: percorrendo o catálogo de Neukomm elaborado por José Maria Neves, Rosana Lanzelotte constatou que as setenta obras nele listadas que correspondem ao período compreendido entre a chegada de Neukomm e sua partida do Brasil, constitui uma crônica dessa estada, pontuada pelas ocasiões às quais essas musicas se referem, e pelos personagens aos quais aludem. Rosana utiliza esta crônica subliminar para ordenar e dar conteúdo a cada um dos capítulos desse livro.

Esse livro é não somente o primeiro livro brasileiro dedicado ao compositor, como um dos poucos até agora focalizando esse personagem cujo único handicap foi o de ser um contemporâneo de gigantes, na cena austríaca, como Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert. Ele traz, sem qualquer perda de conteúdo acadêmico (mas sem ser sobrecarregado por ele) uma contribuição notável para o conhecimento de Neukomm, de sua estada no Brasil, e do Brasil no qual viveu e amou intensamente.

Manoel Correa do Lago

Neukomm – o Cavaleiro dos Sons

Cavaleiro dos Sons

Neukomm – o criador da música de câmara no Brasil

Sigismund Neukomm (1778 – 1858), o aluno predileto de Haydn, é quase um desconhecido, apesar da qualidade de sua música e do sucesso de que desfrutava em sua época. Viajante incansável, trocou o país natal, a Áustria, pela França, passou pelas principais cortes européias, antes de chegar ao Brasil em 1816. A constante itinerância talvez explique o esquecimento: é praticamente igno-rado pelas histórias da música da Áustria e da França, país onde residiu a maior parte da vida. Para os brasileiros, sua obra é primordial e desperta a atenção dos pesquisadores.

“Nasci em Salzburgo, em 10 de julho de 1778, sendo o mais velho de uma grande família, e fui batizado com o nome de Sigismund. Sem ser um prodígio, como o imortal Mozart, que também nasceu em Salz-burgo em uma casa vizinha à nossa, minhas aptidões foram precoces…”

A exemplo de Joseph Haydn, e consciente da importância de sua obra, Neukomm escreve a autobiografia, publicada logo após a morte. Trata-se de prática até então incomum, porém condizente com o novo status dos compositores, que, ao final do século XVIII, deixam de ser meros artífices e galgam a posição de criadores.

«Cheguei a Viena em fins de março de 1797. Joseph Haydn, sob a recomendação expressa de seu irmão Michael, recebeu-me muito gentilmente, e concordou em admitir-me como mais um de seus alunos, principalmente no que se refere aos aspectos estéticos, já que eu havia concluído os estudos teóricos. Tive a felicidade de rapidamente merecer a afeição do meu mestre, que me dedicou um amor paternal, e a lembrança de sua bondade nunca seria apagada.»

Nasce a amizade que só seria interrompida pela morte de Haydn, além de uma intensa colaboração musical. Neukomm participou da orquestração e fez transcrições para piano de “A Criação”, “O Retorno de Tobias”, “As Estações” e “As Sete últimas palavras de Cristo na Cruz”.

” A partir de janeiro de 1804, iniciei o catálogo de minhas obras, em ordem cronológica, e continuei regularmente até a presente data (10 de novembro de 1853), onde relaciono as 1 780 obras mais relevantes de minha produção. Este catálogo contem, além dos primeiros compassos de cada uma das minhas composições, o local e data onde a obra foi terminada..”

Trata-se do primeiro catálogo temático da história da música, em que, além da descrição, consta o trecho inicial de cada obra, para facilitar sua identificação. Graças a esse catálogo, cuja cópia em dois volumes foi feita pelo irmão de Neukomm, Anton, conservado hoje na Biblioteca Nacional da França, conhece-se a extensão e a cronologia de suas quase 2000 obras, quase todas editadas na época, o que comprova o seu prestígio.

Neukomm acompanha Talleyrand ao Congresso de Viena e desperta desconfianças, como se lê na biografia do Príncipe escrita por Jean Orieux:

“Um dos personagens da comitiva de Talleyrand era tão misterioso que tirou o son o da polícia austríaca. Sabia-se da existência desse personagem que ninguém havia visto. Os relatos fixaram, entretanto, um detalhe: ele tomava suas refeições em uma pequena mesa do aposento de Talleyrand. Durante a noite, espiões esgueiravam-se ao longo das paredes e ouviam acordes de um piano até o amanhecer. Conclui-se que aquela música não tinha outro objeto que o de esconder as vozes dos conspiradores. Foram necessários quinze dias e a complacência de Talleyrand para que soubessem que o personagem chamava-se Neukomm, austríaco, de 36 anos, seu pianista há seis anos. Havia-o incumbido de compor um Te Deum  pelo retorno do rei Luís XVIII. … A despeito desse esclarecimento, todos os membros do Congresso estavam persuadidos de que tratava-se de um espião”.

Durante o Congresso, Neukomm compôs e dirigiu, auxiliado por Salieri, o Réquiem em homenagem a Luís XVI, com a participação de dois coros, em um total de 300 cantores. Em reconhecimento, recebeu, dez dias depois, a comenda de Cavaleiro da Legião de Honra. O Te Deum a que se refere Orieux foi apresentado após o Congresso, em 8 de julho de 1815 na igreja de Notre Dame de Paris, para festejar o retorno de Luís XVIII a Paris, quando da derrota definitiva de Napoleão em Waterloo. A relevância musical e histórica das obras em homenagem aos dois reis de França dão a dimensão da importância do compositor na Europa do início do século XIX.

“Em 1816, aproveitei-me da vantajosa oferta feita pelo Duque de Luxemburgo, para acompanhá-lo ao Rio de Janeiro…”

Neukomm fazia parte da relação de artistas da Missão Francesa, mas, ao contrário do esperado, não veio. Preferiu viajar oficialmente, como integrante da comitiva do Duque de Luxemburgo, Embaixador extraordinário enviado por Luís XVIII ao Brasil.

“O Príncipe de Talleyrand havia me entregado uma carta de recomendação para o Conde da Barca, que, anteriormente Embaixador de Portugal em Paris, havia estado intimamente ligado ao príncipe. Esta recomendação foi-me muito útil depois. O Conde da Barca era um homem de mente esclarecida e tinha grandes conhecimentos. Recebeu-me com notável benevolência, e quando, algumas semanas após nossa chegada, o Duque de Luxemburgo decidiu retornar à França, o Conde propôs-me ficar no Rio de Janeiro, oferecendo-me casa e comida. “Temos a esperança, disse-me, de fundar um novo império neste Novo-Mundo, e você terá grande interesse em ser testemunha deste período de desenvolvimento.”

O Conde da Barca era, ao lado de Talleyrand e Metternich, um dos mais brilhantes diplomatas de sua época. Graças a ele, Portugal conseguiu manter a neutralidade durante as guerras napoleônicas. Devemos a ele a nossa imprensa, pois trouxe em sua bagagem particular os prelos e tipos comprados em Portugal para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, e que ainda estavam encaixotados. Montados no porão de sua casa no Rio de Janeiro, logo estaria operacional a primeira tipografia em terras brasileiras.

“Aceitei sem pestanejar a sua generosa oferta. Ele era como eu solteiro e tinha como única companhia um amigo de idade, o Dr. Carvalho, homem muito distinto, médico da infanta Dona Isabela, futura regente de Portugal.”

Barca faleceu em 1817 nos braços de Neukomm…

O compositor chega ao Brasil no auge da disputa entre José Maurício e Marcos Portugal pela preferência de D. João. Logo percebeu que não havia espaço para ele na Capela Real, palco principal do duelo entre seus talentosos colegas. Não havia música de câmara, música para piano, música para bandas, música sinfônica … Neukomm, nascido no berço do classicismo, a Áustria, onde rei-nava a magnífica obra de seus conterrâneos Mozart e Haydn, inaugura esses repertórios no país!

Inicia ainda a prática que tornou-se a marca registrada da produção musical brasileira: a mistura de gêneros clássicos e populares. Inspirou-se na modinha – “A Melancolia” – de Joaquim Manoel da Câmara para escrever a fantasia L’Amoureux, dedicada ao Barão de Langsdorff, cônsul-geral da Rússia no Brasil a partir de 1813. Casado com uma antiga aluna de Neukomm em São Petersburgo, a residência dos Langsdorff era ponto de encontro dos amantes da música, que se reuniam para tocar as novidades chegadas da Europa. Os saraus aconteciam também na casa do Marquês de Santo Amaro, onde Neukomm passou a residir após a morte do Conde da Barca. Nessas ocasiões solidificou-se a amizade com o Padre José Maurício.

“A dedicação, com a qual Padre Garcia resolveu todas as dificuldades, para finalmente realizar aqui uma obra prima do nosso imortal Mozart, recebeu o mais caloroso agradecimento dos amantes da arte locais. De minha parte, considero uma obrigação utilizar esta oportunidade para tornar esse homem conhecido em nosso meio cultural europeu, ele que é notado por sua grande modéstia e, provavelmente, graças a esta oportunidade, é a primeira vez que seu nome é citado. Ele tem o mais merecido direito desta honrosa distinção, visto que sua formação é a sua própria obra. … A execução do Requiem de Mozart não deixou nada a desejar, todos os talentos colaboraram para tornar o genial Mozart apreciado neste novo Mundo. Esta primeira experiência teve tão bom resultado, que esperamos que não seja a última.”

Neukomm compôs o Libera me Domine para concluir essa primeira apresentação no continente americano do Requiem de Mozart. Nessa matéria enviada ao Allgemeine Musikalische Zeitung em 1820, afirma a admiração pelo Padre mestre, considerado por ele o maior improvisador e acompanhador que havia conhecido.

O compositor escreveu no total 70 obras no Brasil, entre as quais 14 peças para pianoforte, 11 para pequeno conjunto de câmara e 18 para bandas, além da primeira sinfonia escrita no país! Em 1819, compõe O Amor Brasileiro, capricho sobre um lundu dedicado à Mademoiselle Donna Maria Joanna d’Almeida. Talvez fosse ela a quem se referia quando escreveu que, entre seus alunos, havia…

“…uma senhorita de 16 anos, que tem aptidões extraordinárias e uma aplicação pouco comum. Ela faz progressos espantosos, mesmo que me tenha sido necessário empregar os primeiros meses para fazê-la esquecer o pouco que tinha aprendido em mais de 3 anos, para enfim colocá-la no caminho certo. Como havia concluido sua educação, pensei poder exigir que trabalhasse ao menos 8 horas todos os dias; ela achou que isso não era suficiente e a pobre criança trabalha mais de 10 horas, seguindo escrupulosamente as indicações que lhe dei.”

Encantado pelo talento do violeiro Joaquim Manoel da Câmara, Neukomm registra vinte de suas modinhas, publicadas quando de seu retorno a Paris em 1821. Trata-se de um dos únicos registros da música tipicamente brasileira do início do séc. XIX, e o único testemunho da arte do modinheiro.

Além do Príncipe D. Pedro, Neukomm foi professor de Francisco Manoel da Silva, autor do hino nacional. Coincidência ou não, a Fantasia para flauta escrita por Neukomm em Paris em 1823, pouco após deixar o Brasil, apresenta o desenho melódico mais marcante do nosso hino, datado de 1831.

Spix e Martius, em seu livro Viagem pelo Brasil, afirmam que a cultura musical no Brasil não estava suficientemente madura para a música de Neukomm, escrita no melhor estilo vienense.

A despedida, em 1821 inspirou diversas obras, entre as quais um cânone para oito vozes sobre as sílabas:

«C-a-ca, p-r-i-pri, capri, c-o-r-cor, capricornia
Carioca, Corcovado vado vado
Addio, addio »

A tristeza da partida é admiravelmente ilustrada pela canção Addio. Ao mesmo tempo plácidas e melancólicas, as peças exprimem a nostalgia que se instala à medida em que a fragata Matilde se distancia das praias do Rio:

“Peço-vos perdão amigos, se não me despedi
com minha dor e com meu pranto não vos queria perturbar
Desejo, então, que os acordes do céu tragam dias serenos e honrados
que o zelo, com o coração agradecido não cessará de implorar.
Adeus, adeus”

(texto da canção “Addio, addio”, escrita a bordo da fragata Matilde, ancorada na Baía de Guanabara, 14 de abril de 1821 às 18 horas)

Rosana Lanzelotte iniciou em 2003 as pesquisas sobre Sigismund Neukomm visando o Ano do Brasil na França, em 2005. Ao lado de Ricardo Kanji (flauta), acaba de gravar para o selo Biscoito Fino o CD Neukomm no Brasil, com as obras que inauguram o repertório de música de câmara no país.

2005 – O Ano do Brasil na França

Brésil, Brésils

Desde o momento em que soube que o ano de 2005 seria o Ano do Brasil na França, em fevereiro de 2003, comecei a imaginar um projeto em torno da música na época da Missão Artística Francesa, que chegou em 1816 ao Brasil.

A corte de D. João VI estava bem servida por músicos do quilate de José Maurício Nunes Garcia e Marcos Portugal, quando aqui chega, logo após a Missão Artística, o austríaco Sigismund von Neukomm 1858). Aluno predileto de Haydn, Neukomm residiu no Brasil entre 1816 a 1821, período durante o qual compôs 45 obras, e foi professor de música do príncipe Dom Pedro e do autor do hino nacional, Francisco Manoel da Silva. Sua importância para a nossa música é capital: foi o primeiro a se utilizar de gêneros populares brasileiros, como a modinha e o lundu, em suas obras. Foi também quem harmonizou e fêz imprimir em Paris o álbum de modinhas brasileiras, da autoria do mestiço Joaquim Manoel da Câmara, o mais famoso virtuose do cavaquinho do início do século XIX.

A presença de Neukomm no Brasil foi estudada por todos os nossos grandes musicólogos, desde Mozart de Araújo, passando por Luiz Heitor Correa de Azevedo e chegando ao querido José Maria Neves, que foi quem me colocou na pista do compositor.

Pouco antes de falecer, José Maria deixou-me uma cópia do catálogo completo das obras de Neukomm em que estava trabalhando. Guiada por esse trabalho, iniciei uma longa pesquisa na Biblioteca Nacional da França, onde se encontram a maior parte dos manuscritos. Deparei-me com obras de grande qualidade artística, o que me entusiasmou ainda mais.

Dei notícias de minhas descobertas a algumas pessoas ligadas à realização do ano do Brasil na França, principalmente ao chefe da delegação francesa, Jean Gautier, e a seu grande amigo no Brasil, Romaric Sulger-Buel. Ao mesmo tempo, tratei de interessar Alain Pacquier, diretor do Centro Internacional dos Caminhos do Barroco, responsável pelo lançamento na França dos CDs Missa Pastoril – Nunes Garcia e Música Sacra do Brasil – Vox Brasiliensis, dos quais participei. A minha colaboração com Pacquier datava da época das comemorações dos 500 anos do Brasil, quando participei da programação dos concertos de música colonial brasileira na exposição sobre o Brasil Barroco no Petit Palais.

Consegui transmitir a esses importantes parceiros o entusiasmo pela idéia do projeto, que envolve a música que Neukomm escreveu no Brasil e também dos músicos com que aqui conviveu e que muito admirou – Joaquim Manoel da Câmara, de quem transcreveu as modinhas, e José Maurício Nunes Garcia, sobre quem escreveu: “De minha parte, considero uma obrigação utilizar a oportunidade para tornar esse homem conhecido em nosso meio cultural europeu…”

Inspirada pelo titulo de uma das peças que Neukomm aqui compôs em torno de um lundu e também pela amizade que nutria por Nunes Garcia, intitulamos o projeto de O Amor Brazileiro, assim mesmo, com “z”, como no manuscrito autógrafo da obra.

O projeto O Amor Brazileiro foi encampado por Alain Pacquier, que dele fez o tema do 5º Mês Nacional do Barroco Latino-americano, que acontecerá em novembro e dezembro por 30 cidades de todas as regiões da França. Ainda no âmbito do projeto, estão sendo gravados 3 CDs, consagrados à música de Nunes Garcia/Neukomm, a serem lançados em outubro pelo selo K.617, distribuído mundialmente pela Harmonia Mundi.

  • O Amor Brazileiro – obras escritas por Sigismund von Neukomm quando da sua estada no Rio de Janeiro, com Ricardo Kanji e Rosana Lanzelotte.
  • Ulissea – o triunfo da América e Missa de Requiem, obras de Nunes Garcia, registradas pelo conjunto Calíope.
  • Modinhas e Lundus – em torno das “modinhas” de Joaquim Manoel da Câmara harmonizados por Neukomm, registradas pelo Vox Brasiliensis.

 

Recitais agendados:

 

  • 13 de Junho – Teatro Real do Palácio de Versailles – recital com Antonio Meneses por ocasião da Noite de Gala de Versalles, organizada pela  ABEF2005 presidida por D. Lily Marinho.
  • 2 de Julho – Festival Couperin em Concertos – Castelo de Champs-sur-Marne – concerto de “modinhas” e “lundus” ao lado de solistas vocais e Luís Leite (guitarra).
  • 25 de Setembro – Festival Ile de France – recital solo – programa S. Neukomm e P. A. Avondano.
  • 8 de Novembro – Paris – Sede da France-Amériques – recital com Ricardo Kanji (flauta) – obras de S. Neukomm
  • 12 de Novembro – Sarrebourg – Abertura do Vº Mês Nacional do Barroco Latino-Americano – recital com Ricardo Kanji (flauta) – obras de S. Neukomm
  • 18 de Novembro – Dijon – recital com Ricardo Kanji (flauta) – obras de S. Neukomm
  • 30 de Novembro – Saintes – recital com Ricardo Kanji (flauta) – obras de S. Neukomm